O Paradoxo do Deus que Ama e "Odeia""Deus é Amor" (1Jo 4:8, ARA). Esta é uma das declarações mais conhecidas das Escrituras. E ainda assim, quando lemos algumas traduções do Antigo Testamento, nos deparamos com passagens que dizem que Deus "odeia". Como compreender isso? Estaria o Amor contradizendo a si mesmo? Ou seria o nosso vocabulário que precisa de revisão?Comecemos examinando alguns versículos:"Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina..." (Provérbios 6:16-19, ACF)"Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal. Os arrogantes não permanecerão na tua presença; odeias todos os que praticam a iniquidade." (Salmos 5:4-5, NVI)"...todavia amei a Jacó, e odiei a Esaú..." (Malaquias 1:2-3, ACF)A Palavra no Original: O Que Realmente Dizem as EscriturasEm todos esses versículos, algumas traduções usam o verbo odiar, o que pode causar estranheza, especialmente para leitores sensíveis ao caráter amoroso de Deus revelado em Cristo. E essa estranheza é um sinal que nos convida a uma leitura mais coerente com o Amor eterno.Ao examinarmos os originais em hebraico, percebemos que há nuances.No hebraico, a palavra utilizada é ( ָשׁנֵאsanê’), cuja raiz pode significar não apenas "odiar" em um sentido emocional, mas também reprovar, rejeitar, afastar-se, romper aliança ou não atestar. A Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento, traduz esse termo muitas vezes por μισέω (miseō), com sentidos semelhantes: odiar, rejeitar, preterir.O uso do verbo "odiar", quando aplicado a Deus, frequentemente exige uma ginástica teológica desnecessária para explicar o significado do versículo. Mas não haveria essa necessidade se, desde o início, fosse usada uma tradução mais fiel ao contexto e ao caráter divino. Termos como detestar, reprovar ou romper aliança comunicam o sentido do original com muito mais coerência e sem escandalizar a consciência espiritual do leitor.Vejamos então:"Existem sete coisas que o Senhor Deus detesta e que não pode tolerar: " (Provérbios 6:16-19, NTLH)"Tu não és um Deus que se agrade com a maldade; contigo o mal não pode habitar. Os arrogantes não são aceitos na tua presença; detestas todos os que praticam o mal." (Salmos 5:4-5, NVI)"...eu amei Jacó, mas rejeitei Esaú." (Malaquias 1:2-3, NVI)Entre a Tradição e a RevelaçãoMesmo a tradição judaica trata com cautela o uso do verbo "odiar" atribuído a Deus. Para Maimônides — médico, rabino e filósofo do século XII, autor do Guia dos Perplexos e considerado um dos maiores intérpretes da Torá na tradição judaica — expressões como essa são antropomorfismos: formas humanas de descrever ações divinas, usadas para facilitar nossa compreensão limitada. Concordo no uso desse recurso como facilitador para a compreensão humana, ainda muito limitada para uma compreensão plena. No entanto, neste caso específico, entendo que essa explicação simbólica não é necessária — e pode até prejudicar o verdadeiro sentido do texto original.Cristo, o Verbo que AmaJesus jamais conjugou o verbo "odiar" na primeira pessoa. Ao contrário, Ele disse:
"Como o Pai me amou, assim eu os amei; permaneçam no meu amor." (João 15:9, NVI)
"Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei." (João 15:12, NVI)"Todavia, faço o que o Pai me ordenou para que o mundo saiba que eu amo o Pai." (João 15:31, NVI)João, o apóstolo conhecido como o discípulo do Amor, escreveu:"Quem diz estar na luz, e odeia a seu irmão, até agora está em trevas." (1Jo 2:9, ARA)"Todo aquele que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanente em si." (1Jo 3:15, ARA)"Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama a seu irmão, a quem viu, não pode amar a Deus, a quem não viu." (1Jo 4:20, ARA)Alguém poderia, então, argumentar: "Mas não existe um ódio justo, um ódio santo contra a injustiça, a opressão ou o próprio pecado?" Não. Mas por que não? Porque a linguagem do Reino nos chama a uma precisão maior. Usando palavras como "reprovo", "luto contra" a injustiça, ficamos dentro do amor incondicional para com as pessoas, inclusive para com nossos inimigos. Na verdade essa precisão maior expressa com muito mais fidelidade a repulsa à injustiça, à opressão ou ao próprio pecado. Porque se de fato nosso sentimento ultrapassar essa fronteira, corremos sério risco de cair nas armadilhas do opositor, e ele é muito bom nisso: usar nossas próprias virtudes contra nós, nos desviando da via correta — a via da retidão.
Evandro Seveginini, mais conhecido como C.S. Evans, nosso 007.


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