sábado, 18 de outubro de 2025

O Verbo que um Cristão Não Deve Conjugar (Parte 2)

 




A Linguagem que Alinha o Espírito

Com isso em mente, é urgente que reflitamos sobre o emprego do verbo "odiar" em nossa linguagem cotidiana. Ouço ainda muitos cristãos dizendo com naturalidade: "Eu odeio isso"; "Tenho ódio daquilo"; "Ai, que ódio!". Mas Jesus disse: "a boca fala do que está cheio o coração." (Lucas 6:45, ARA)

O que falamos tem poder. E o uso descuidado de palavras que se opõem ao Amor é também um desserviço espiritual que fazemos conosco mesmos. A santidade se reflete também no vocabulário.

Conjugar um verbo não é apenas pronunciá-lo — é associar-se a ele. O mesmo radical que origina o verbo "conjugar" também está presente em "cônjuge": ambos vêm do latim "coniugare", que significa "unir sob o mesmo jugo". Conjugar um verbo, portanto, é mais do que usar uma forma gramatical — é se vincular a uma expressão de sentido, a um sentimento, a um comportamento, a uma força. Assim, conjugar o verbo odiar na primeira pessoa é entrar em aliança com o inimigo do Amor. É tornar-se cônjuge de uma conduta que contraria o Espírito do Senhor. É adotar, ainda que sem perceber, uma linguagem infiel ao Evangelho de Cristo.

E não nos surpreendamos que uma palavra comum possa carregar tanto peso. O próprio Cristo nos ensinou a ver além do literal, usando as mais ricas metáforas para descrever nossa união com Ele. Ele se apresentou como o Noivo, chamando a Igreja para uma aliança de fidelidade. Ele se revelou como a Videira, ensinando que nossa vida e nosso fruto dependem de estarmos permanentemente "ligados" — sob o seu jugo, sua autoridade, a qual é leve. Portanto, nesse mesmo espírito, o ato de "conjugar" o verbo amar ou odiar na primeira pessoa se torna uma declaração profunda: é dizer com quem nos unimos em aliança — e a qual Senhor servimos.

E essa escolha exige uma lealdade exclusiva. Como o próprio Jesus nos ensinou, não podemos servir a dois senhores. Assim, nossa aliança com o Amor implica uma busca constante, a cada momento, pela obediência ao nosso Pai Celestial.

Quando fazemos uso do verbo “odiar”, mesmo em tom de brincadeira, estamos plantando em nós uma semente que não floresce no jardim do Reino. A língua, como ensinou Tiago (Tg 3:5-12), pode ter dois destinos: pode ser como o fogo que incendeia e destrói o jardim do coração, ou pode ser uma fonte de bênção, que o irriga e faz germinar a semente da paz.

Exame Espiritual do Vocabulário

Por isso, com respeito e firmeza, proponho:

Que o verbo odiar e a palavra ódio não encontrem espaço em nosso vocabulário cristão!

É tempo de fazermos um exame espiritual também em nosso vocabulário, removendo da boca aquilo que nunca deveria ter descido ao coração. Porque quem nasceu do Alto não fala como 
antes, nem sente ou pensa como antes — fala como quem já foi tocado e transformado pelo Amor.

Como disse Jesus: "
Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo." (João 3:7, ARA)

De minha parte, o ódio está oficialmente desempregado. Sem direito a aviso prévio! Que ele desapareça da face da Terra por inanição — desnutrido pela falta de uso, desidratado, porque o sangue que agora circula em nosso coração já não o alimenta. Que nosso coração seja, enfim, inteiro de Cristo Jesus!

Mas não basta deixar de alimentar o ódio — é preciso vigiar, para que ele não encontre outra porta por onde entrar.

Jesus nos advertiu: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação..." (Mateus 26:41, ARA). Precisamos vigiar o que entra em nosso coração e o que sai da nossa boca. Vigiar também nossos pensamentos e atitudes — porque o Amor não coabita com o ódio, nem a santidade com a imprudência. Por isso, convido você, meu irmão e minha irmã, a examinar que palavras tem empregado em sua vida. Quantas expressões, mesmo ditas em tom de brincadeira ou por hábito, carregam contradição com o Espírito que professamos seguir? Será que o vocabulário que usamos no trânsito, nas redes sociais, em casa e no trabalho está alinhado com Aquele que é o Verbo encarnado?

Amar é o Verbo que Devemos Conjugar

Este é o ordenamento: "Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mateus 5:44, ARA)

Deus é Amor. Amar é o verbo divino que devemos conjugar. Que a nossa fala seja espelho fiel do Seu Espírito.




Evandro C. Severgnini  
é escritor, compositor e poeta cristão.  
Assina seus trabalhos espirituais como C. S. Evans. 
Em sua obra, busca unir profundidade teológica e linguagem acessível, com um estilo literário que transita entre o formal e o poético, revelando um pensamento que convida à contemplação e à vivência do Amor divino.  
Seus textos se fundamentam nas Sagradas Escrituras, com ênfase nos Evangelhos e nos princípios do Amor e da Justiça de Deus, da Redenção e da Restauração, do Arrependimento e da fé obediente.  
Em março de 2025, lançou o álbum O Caminho, marco inicial de sua trajetória pública como artista e autor cristão.  
Suas palavras e canções buscam inspirar, restaurar a esperança e fortalecer os vínculos entre os que creem, alcançando também os corações que ainda buscam compreender a mensagem transformadora de Jesus Cristo.

sábado, 11 de outubro de 2025

O Verbo que um Cristão Não Deve Conjugar (Parte 1)

 

O Paradoxo do Deus que Ama e "Odeia"

"Deus é Amor" (1Jo 4:8, ARA). Esta é uma das declarações mais conhecidas das Escrituras. E ainda assim, quando lemos algumas traduções do Antigo Testamento, nos deparamos com passagens que dizem que Deus "odeia". Como compreender isso? Estaria o Amor contradizendo a si mesmo? Ou seria o nosso vocabulário que precisa de revisão?

Comecemos examinando alguns versículos:

"Estas seis coisas o Senhor
odeia, e a sétima a sua alma abomina..." (Provérbios 6:16-19, ACF)

"Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal. Os arrogantes não permanecerão na tua presença;
odeias todos os que praticam a iniquidade." (Salmos 5:4-5, NVI)

"...todavia amei a Jacó, e
odiei a Esaú..." (Malaquias 1:2-3, ACF)

A Palavra no Original: O Que Realmente Dizem as Escrituras

Em todos esses versículos, algumas traduções usam o verbo odiar, o que pode causar estranheza, especialmente para leitores sensíveis ao caráter amoroso de Deus revelado em Cristo. E essa estranheza é um sinal que nos convida a uma leitura mais coerente com o Amor eterno.

Ao examinarmos os originais em hebraico, percebemos que há nuances.

No hebraico, a palavra utilizada é ( ָשׁנֵא
sanê’), cuja raiz pode significar não apenas "odiar" em um sentido emocional, mas também reprovar, rejeitar, afastar-se, romper aliança ou não atestar. A Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento, traduz esse termo muitas vezes por μισέω (miseō), com sentidos semelhantes: odiar, rejeitar, preterir.

O uso do verbo "odiar", quando aplicado a Deus, frequentemente exige uma ginástica teológica desnecessária para explicar o significado do versículo. Mas não haveria essa necessidade se, desde o início, fosse usada uma tradução mais fiel ao contexto e ao caráter divino. Termos como detestar, reprovar ou romper aliança comunicam o sentido do original com muito mais coerência e sem escandalizar a consciência espiritual do leitor.

Vejamos então:

"Existem sete coisas que o Senhor Deus
detesta e que não pode tolerar: " (Provérbios 6:16-19, NTLH)

"Tu não és um Deus que se agrade com a maldade; contigo o mal não pode habitar. Os arrogantes não são aceitos na tua presença; detestas todos os que praticam o mal." (Salmos 5:4-5, NVI)

"...eu amei Jacó, mas
rejeitei Esaú." (Malaquias 1:2-3, NVI)

Entre a Tradição e a Revelação

Mesmo a tradição judaica trata com cautela o uso do verbo "odiar" atribuído a Deus. Para Maimônides — médico, rabino e filósofo do século XII, autor do Guia dos Perplexos e considerado um dos maiores intérpretes da Torá na tradição judaica — expressões como essa são antropomorfismos: formas humanas de descrever ações divinas, usadas para facilitar nossa compreensão limitada. Concordo no uso desse recurso como facilitador para a compreensão humana, ainda muito limitada para uma compreensão plena. No entanto, neste caso específico, entendo que essa explicação simbólica não é necessária — e pode até prejudicar o verdadeiro sentido do texto original.

Cristo, o Verbo que Ama

Jesus jamais conjugou o verbo "odiar" na primeira pessoa. Ao contrário, Ele disse:

"Como o Pai me amou, assim
eu os amei; permaneçam no meu amor." (João 15:9, NVI)

"Que vos ameis uns aos outros, assim como
eu vos amei." (João 15:12, NVI)

"Todavia, faço o que o Pai me ordenou
para que o mundo saiba que eu amo o Pai." (João 15:31, NVI)

João, o apóstolo conhecido como o discípulo do Amor, escreveu:

"Quem diz estar na luz, e
odeia a seu irmão, até agora está em trevas." (1Jo 2:9, ARA)

"Todo aquele que
odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanente em si." (1Jo 3:15, ARA)

"Se alguém disser: Amo a Deus, e
odiar a seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama a seu irmão, a quem viu, não pode amar a Deus, a quem não viu." (1Jo 4:20, ARA)

Alguém poderia, então, argumentar: "
Mas não existe um ódio justo, um ódio santo contra a injustiça, a opressão ou o próprio pecado?" Não. Mas por que não? Porque a linguagem do Reino nos chama a uma precisão maior. Usando palavras como "reprovo", "luto contra" a injustiça, ficamos dentro do amor incondicional para com as pessoas, inclusive para com nossos inimigos. Na verdade essa precisão maior expressa com muito mais fidelidade a repulsa à injustiça, à opressão ou ao próprio pecado. Porque se de fato nosso sentimento ultrapassar essa fronteira, corremos sério risco de cair nas armadilhas do opositor, e ele é muito bom nisso: usar nossas próprias virtudes contra nós, nos desviando da via correta — a via da retidão.






Evandro Seveginini, mais conhecido como C.S. Evans, nosso 007.


O Verbo que um Cristão Não Deve Conjugar (Parte 2)

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